sexta-feira, março 09, 2007

Você se declara culpada ou inocente? Culpada.

Era uma noite de sábado que meu ego pedia muito para eu sair. Ele estava exigente naquela noite, pediu unha vermelha, salto e preto na roupa. Obedeci tim por tim.

Encontrei com uma amiga Adriana, que é atriz num bar em Higienópolis, brinquei com o dono do bar, ri na mesa e conversei com pessoas novas. Depois fomos para a Praça Roosevelt, antro de atores e bares estilosos. Continuei, conversei com pessoas novas, bebi e ri. Minha amiga foi para o sambódromo e eu fiquei com as pessoas desconhecidas, mas simpáticas que me receberam super bem.

As quatro da matina fui embora, um dos moços me levou até o ponto de taxi que fica em frente a um puteiro famoso de sampa. Apesar do moço ser gay, ele é ator e fingiu ser meu para o taxista e disse:" Assim, que vc chegar, me telefona para saber se chegou bem." Eu entedi o truque e disse que ligaria com certeza, nem tenho o telefone dele. O taxista malandrão e intrometido , falou:"Com cerrrrrteza, ela vai chegar inteira!" Meu Deus!

Assim que viramos a esquina, ele manda:
" Vamos para onde?"
"Para o itaim."
" Bora para São Miguel, então?"
"Não!!! Se eu for para São Miguel agora, não vou chegar viva para telefonar para o moço. Não é Itaim Paulista é Itaim Bibi. "
"Ah , tá. Ih, mas di telefoná não se preocupa. Outro dia levei uma moça daí ..."
Pensei:"Daí, onde cara pálida?"
".... e o cara que ela estava falou o mesmo. Então, ela me pediu para parar num orelhão e ligou para o cara, dizendo que já estava em frente a casa dela, mas não ligou de dentro para não acordar as pessoas. Depois disso comprou uma cerveja para mim e para ela, e levei a mina na balada. Tá vendo, não tem problema."
Eu: "Opa!" (não me venho mais nada na cabeça.)

Depois disso, ele passou a contar outras milhares de histórias desse tipo ou piores. Inclusive que para sair com homem hoje em dia é muito difícil, até descobrir se é gay ou não.... ihhh. Então contou que uma outra mina voltou com ele triste, pois tinha saído com dois caras e eles acabaram juntos e ela teve que voltar de taxi sozinha.

Pensei: " Ai , meu pai!"

Então veio o que faltava:
" As meninas da noite são legais, né? O pessoal não sabe, mas trabalhar na noite tem gente bacana né? Poxa tem tanta gente legal!"

Ele tinha tanta certeza que eu era prostituta que reconheceu onde eu morava:
"Ah, você é a menina que sempre pega com a gente e mora nesse flat, já te trouxe aqui várias vezes, como não te reconheci?!"

Eu ia negar, mas às quatro da matina, na frente de um prostíbulo, sozinha, de unha vermelha, salto, e indo para um flat... eram muitos os indícios contra mim.

Respondi: " É, sou eu mesma! Boa noite."

Protesto aos 30!

Era o dia mais quente dos últimos vinte anos, era a semana mais difícil dos últimos anos e era sexta-feira. Terapia era imprescíndível depois de tantas ocorrências.

Na volta, estava num ônibus, ou melhor num forno, quando tudo parou. A Policia do Exército bloqueou a travessia da Av. Água Espraiada, de quatro pistas para cada lado, para o Bush passar. Todos os carros e motos iniciaram um "buzinasso", em protesto contra o Bush. Uma garota, motorista de um fusca roxo, gritava para o cobrador que isso estava acontecendo por causa do presidente americano, tentando contagiar sua raiva. O cobrador saiu da posição dele dizendo que brasileiro tem mais é que se lascar mesmo, o homem tem grana , para tudo e pronto.

Eu estava em pé no ônibus e observei a raiva de todos, o protesto e os gritos do motoristas mais jovens, contra o imperialismo. Lembrei das passeatas que participei, até sozinha, a raiva que sentia e a importância que eu dava ao meu grito na rua... que pena , isso tudo diminuiu bem. Não me vejo mais nesse calor, andando na paulista! Não tenho mais aquela crença na mudança e se mudar, outra desgraça vai acontecer, e assim caminha o mundo. A civilização nunca foi equilibrada, em tempo algum, por que as pessoas têm esperança que pode mudar para melhor? Nunca foi e não tem porquê ser!

A Av. Santo Amaro continuava bloqueada para atravessar a Av. Água Espraiada, o calor insuportável e dentro do ônibus um forno. Desci e resolvi ir a pé. Segui em frente e quando cheguei no cruzamento, estava a P. E. e a CET bloqueando os carros e motos e na calçadas umas vinte pessoas paradas, aguardando a liberação para atravessar. Os policiais estavam de um lado e de outro do farol, de costas um para outro, formando um corredor.

Segui, sem parar, não olhei para os lados e atravessei! Levantei a cabeça, fiz cara de brava, fiquei ereta, de vestido longo esvoaçante , cabelo solto e atravessei sozinha, as oitos pistas da Avenida, sem qualquer impedimento. Quando cheguei do outro lado, olhei para trás e estavam todas as pessoas da calçada vindo juntas também! Ri com orgulho. Ainda posso protestar, de forma silenciosa, metida (tá bom.. eu estava num ônibus, não foi tão metida assim!), enfim, um protesto de 30 anos.